Como
semi-negra (as pessoas dos movimentos negros já me odeiam por esse
semi) e sonho-de-modelo-
frustado eu não poderia ignorar o assunto cota nas
passarelas.
Eu sempre fui radicalmente contra cotas que levassem em conta a cor das pessoas. Pra mim a cor sempre foi um detalhe e sempre foram muitas. Existem pessoas muito brancas de cabelos ruivos, pretos e loiros. Existem pessoas com a pele muito escura, tão escura que elas parecem ter um brilho diferente. Tem pessoas que tem cor de burro quando foge. Existem
branquinhos de sardinhas, morenas de sardinhas. Tem gente meio vermelha, meio rosinha.
Sempre que vejo a implementação de cotas coloridas fico confusa e fico triste também.
Triste por ver todas as tonalidades lindas dos seres humanos serem separadas em negros e brancos, como se voltássemos à época das películas que não captavam cores e o mundo era um grande lugar monocromático.
Fico triste por perceber que as tonalidades mais escuras precisam de políticas que exijam sua presença, senão elas não são lembradas.
É preciso que o negro (vou usar esse termo óbvio por ser mais fácil) deixe de ser O negro e passe a ser só mais uma pessoa. É realmente complicado ser uma
menininha de 4 anos e nunca ser a
princesinha da festa de fim de ano por não ser loira de olhos azuis. Eu nunca fui o "Alecrim dourado" no jardim de infância, sempre sobrei para ser um capim figurante. A criança não entende que é uma questão cultural, construída a séculos na sociedade. Só dói.
Negros sempre tomaram banho, usaram
xampu e hidratante. Não passaram a fazer isso só quando lançaram produtos específicos para o seu tom de pele (que foi quando eles apareceram nas
propagandas) .
E a resposta a tudo isso vai ser o quê? Colocar cotas? Será que essa convivência forçada vai fazer que se acostume a ver a beleza dessas modelos além da cor? Aí, daqui a um tempo, podemos tirar essa imposição tola e as pessoas já vão estar acostumadas a usar a paleta infinita de cores existentes no planeta?
Aqui alguns depoimentos de modelos negras para a revista
SerafinaAnabela Ferreira: "Acho positivo e espero que sirva de
incentivo para outras profissões"
Janaína Santos: " Por um lado acho uma
besteira. As marcas têm que dar
oportunidade pelo nosso
potencial e não pela nossa
cor. Mas, como isso não acontece, acho que as cotas vão
obrigar as
pesoas a perceberem que podemos trabalhar tão bem quanto os brancos."
Lays Silva: "Quando fiquei sabendo, achei
engraçado. É para a gente ver como ainda existe
preconceito. Alguém tem que criar uma
lei para podermos trabalhar. O lado bom é que vai
obrigar o mercado a olhar para nós."
Gracie Carvalho: "Agora que existe, acho que é uma
oportunidade. Mas é
chato você desfilar só porque há essa
necessidade dos 10% de negros no
casting. Estar lá por uma
obrigação da marca não é legal."
Samira Carvalho: "Acho válido pela
inclusão que pode
proporcionar."
P.s: Uso o semi porque sou filha de uma mãe negra e um pai branco. Não vou renegar nenhuma das metades da minha genética.